Maria Elizabeth Bianconcini de
Almeida alerta que o currículo escolar não pode continuar dissociado das novas
possibilidades tecnológicas
Em um
mundo cada vez mais globalizado, utilizar as novas tecnologias de forma
integrada ao projeto pedagógico é uma maneira de se aproximar da geração que
está nos bancos escolares. A opinião é de Maria Elizabeth Bianconcini de
Almeida, coordenadora e docente do Programa de Pós-Graduação em Educação:
Currículo, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Defensora
do uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) em sala de aula, Beth
Almeida faz uma ressalva: a tecnologia não é um enfeite e o professor precisa
compreender em quais situações ela efetivamente ajuda no aprendizado dos
alunos. "Sempre pergunto aos que usam a tecnologia em alguma atividade:
qual foi a contribuição? O que não poderia ser feito sem a tecnologia? Se ele
não consegue identificar claramente, significa que não houve um ganho
efetivo", explica.
Nesta
entrevista para NOVA ESCOLA, a especialista no uso de novas tecnologias em
Educação, formação docente e gestão falou sobre os problemas na formação
inicial e continuada dos professores para o uso de TICs e de como integrá-las
ao cotidiano escolar.
O que é o webcurrículo?
MARIA ELIZABETH BIANCONCINI DE
ALMEIDA: É o
currículo que se desenvolve por meio das tecnologias digitais de informação e
comunicação, especialmente mediado pela internet. Uma forma de trabalhá-lo é
informatizar o ensino ao colocar o material didático na rede. Mas o
webcurrículo vai além disso: ele implica a incorporação das principais
características desse meio digital no desenvolvimento do currículo. Isto é,
implica apropriar-se dessas tecnologias em prol da interação, do trabalho
colaborativo e do protagonismo entre todas as pessoas para o desenvolvimento do
currículo. É uma integração entre o que está no documento prescrito e previsto
com uma intencionalidade de propiciar o aprendizado de conhecimentos
científicos com base naquilo que o estudante já traz de sua experiência. O
webcurrículo está a favor do projeto pedagógico. Não se trata mais do uso
eventual da tecnologia, mas de uma forma integrada com as atividades em sala de
aula.
O uso das TICs facilita o interesse
dos alunos pelos conteúdos?
MARIA ELIZABETH: Sim, pois estamos falando de
diferentes tecnologias digitais, portanto de novas linguagens, que fazem parte
do cotidiano dos alunos e das escolas. Esses estudantes já chegam com o
pensamento estruturado pela forma de representação propiciada pelas novas
tecnologias. Portanto, utilizá-las é se aproximar das gerações que hoje estão
nos bancos das escolas.
Como integrar efetivamente essas
tecnologias ao currículo escolar e ao projeto pedagógico?
MARIA ELIZABETH: A primeira coisa é ter a tecnologia
disponível. É por isso que não se observam resultados tão favoráveis quando há
apenas um laboratório para toda a escola. A tecnologia tem de estar na sala de
aula, à mão no momento da necessidade. Pode ser um pequeno laboratório na sala
ou um computador por aluno. Não estou falando exclusivamente de computador, mas
de diversas tecnologias digitais.
A ideia do computador como o único
acesso às TICs é ultrapassada?
MARIA ELIZABETH: Sem dúvida! Não que o laboratório
não deva existir. Ele precisa estar na escola, mas passa a ser ressignificado.
O laboratório é para uma atividade mais sofisticada, que exige recursos de uma
reconfiguração, digamos, mais pesada e atualizada. Essa tecnologia precisa
estar à mão para a produção de conhecimento dos alunos à medida que surja a
necessidade.
Isso pressupõe um alto investimento,
incompatível com a infraestrutura de muitas escolas.
MARIA ELIZABETH: O porcentual de alunos em escolas
muito precárias é pequeno. Em termos de política pública, não há solução única.
É preciso buscar ações diferenciadas. Há que superar esses desafios quase
simultaneamente e trabalhar em duas frentes: recuperar atrasos, alguns bem antigos,
e inserir essa nova geração na sociedade digital.
Os telefones celulares já são
amplamente acessíveis e oferecem muitas possibilidades didáticas - o trabalho
com fotos, filmagens, mensagens e mesmo com a internet -, mas a maioria das
escolas prefere proibi-los. Não é uma atitude retrógrada?
MARIA ELIZABETH: Vetar o uso não adianta nada porque
o aluno vai levar e utilizar ali, embaixo da carteira. É preciso criar
estratégias para que os celulares sejam incorporados, pois oferecem vários
recursos e não custam nada à escola. A proibição só incentiva o uso escondido e
a desatenção na dinâmica da aula. Geralmente os estudantes, inclusive de
escolas públicas, têm celular e o levam a todos os lugares. Ele é o instrumento
mais usado pela população brasileira. Basta olhar as estatísticas. O que o
webcurrículo prevê é o uso integrado da tecnologia. Os alunos, com seu celular,
podem fazer o registro daquilo que encontram numa pesquisa de campo. Podem
trabalhar textos e fotos e preparar pequenos documentários em vídeo. Isso
precisa estar integrado ao conteúdo.
E como enfrentar as questões éticas e
desenvolver uma postura crítica em relação a essas mídias?
MARIA ELIZABETH: Da mesma forma que nos preocupamos
com essas questões em todos os campos. A tecnologia não é uma exceção, até
porque ela potencializa o trabalho com diversas mídias, com imagens e textos.
Ela facilita a cópia, o plágio. Mas não que isso não existisse antes. O bom é
que, assim como simplifica a fraude, também facilita a detecção. E o que nos
cabe como educadores? Cabe ajudar o aluno a entender o que é ético para que ele
possa se pautar por uma conduta adequada aos dias de hoje, mas baseado em
princípios que sempre existiram. A única novidade é o meio.
Temos bons exemplos de currículos que
já incorporaram a tecnologia?
MARIA ELIZABETH: Já temos várias iniciativas
importantes no país, mas é preciso ter em mente que os resultados, em Educação,
não vêm em um curto prazo. Os currículos estão se alterando hoje e a diferença
será sentida daqui a algum tempo. Mas a hora da mudança é agora.
As pesquisas conseguem demonstrar o
impacto do uso das tecnologias no aprendizado dos alunos?
MARIA ELIZABETH: É preciso trabalhar com a
perspectiva de análise macro, pois ela é importantíssima para ter a ideia do
que acontece no todo. Entretanto, é necessário fazer estudos de casos
específicos porque assim é possível identificar as inovações, aquilo que
aparece de mudança, o que há de diferente. Para detectar os fatores que levaram
à aprendizagem, é preciso acompanhar o aluno por algum tempo. Às vezes, ele
demonstra um rendimento muito bom, mas isso é anterior e não necessariamente
está relacionado ao uso das TICs. É difícil pegar essas situações. Os exames
nacionais e internacionais não são feitos para identificar esses aprendizados.
Nós vivemos uma situação paradoxal. Os sistemas de ensino estão preocupados em
desenvolver os alunos para que eles tenham autonomia para atuar em uma
sociedade em constante mudança. Mas o ritmo das escolas é o oposto disso.
O que é preciso para que a tecnologia
seja integrada ao currículo?
MARIA ELIZABETH: O currículo da sala de aula não é
apenas o prescrito. Ele se desenvolve do que emerge das experiências de alunos
e professores, do diálogo entre eles. Nesse sentido, o uso das TICs pode
auxiliar muito porque, quando é desenvolvido um currículo mediatizado, é feito
o registro dos processos e com essa base é possível identificar qual foi o
avanço do aluno, quais as suas dificuldades e como intervir para ajudá-lo. Isso
é pouco aproveitado ainda.
Uma recente pesquisa da Fundação
Victor Civita (FVC) mostrou que 72% dos entrevistados não se sentem seguros em
utilizar computadores na escola. A graduação não forma o professor para lidar
com a tecnologia?
MARIA ELIZABETH: Não, a formação inicial não está
dando conta disso. Temos vários estudos em que o professor reconhece que a
tecnologia é importante e ele quer utilizá-la. Mas não é apenas porque tem
pouco domínio que não a emprega. Para integrar as tecnologias, é preciso deter
tanto o domínio instrumental como o conteúdo que deve ser trabalhado, as
próprias concepções de currículo e as estratégias de aprendizagem. Tudo isso precisa
ser integrado numa formação que alguns especialistas já chamam de "nova
pedagogia".
Isso explica por que a pesquisa da
FVC mostrou que 18% das escolas que têm laboratório de informática não usam o
recurso com os alunos?
MARIA ELIZABETH: Provavelmente isso ocorre porque um
único laboratório é muito pouco para dar conta da quantidade de alunos. Isso
desestimula os professores, que, no máximo, conseguem levar a turma duas vezes
por semana. Aí não se cria uma cultura de mudança e de integração da tecnologia
com o currículo por total falta de tempo.
Há algum trabalho de formação para as
TICs sendo feito hoje no país?
MARIA ELIZABETH: Tem havido muitos programas
públicos de formação continuada, entretanto há uma rotatividade enorme dos
professores e isso se perde. Precisamos investir na ampliação do acesso às
tecnologias e, principalmente, nessa formação.
O que devem contemplar os cursos de
formação de professores? Especialistas dizem que eles devem tratar de
atividades ligadas aos conteúdos...
MARIA ELIZABETH: Não se pode separar forma de
conteúdo. É preciso integrar o conteúdo à tecnologia, às estratégias de
aprendizagem e às de ensino. Tudo isso precisa ser relacionado e analisado pelo
professor. Mas é preciso cuidar da gestão desses programas de formação e
principalmente da mediação pedagógica que ocorre nessa formação. Tanto as
universidades públicas como as privadas precisam trabalhar com a realidade da
sala de aula e estar comprometidas com a reflexão sobre a prática.
É possível para a escola acompanhar o
ritmo de avanço das tecnologias?
MARIA ELIZABETH: Não é necessário que isso ocorra. O
importante é que o professor tenha oportunidade de reconhecer as
potencialidades pedagógicas das TICs e aí assim incorporá-las à sua prática.
Nem todas as tecnologias que surgirem terão potencial. Outras inicialmente
podem não ter, mas depois o quadro muda. Primeiro, é preciso utilizar para si
próprio para depois pensar sobre a prática pedagógica e as contribuições que as
TICs podem trazer aos processos de aprendizagem. Daí a importância dos
programas de formação.
O ensino a distância é uma tendência
ou apenas uma alternativa?
MARIA ELIZABETH: A Educação a distância não
significa outra Educação. Educação a distância é Educação mediatizada por
tecnologia. Quanto será presencial ou a distância, são as situações que vão
dizer. Essa oposição entre uma e outra vai se perder. É possível ter Educação
de qualidade a distância e sem qualidade na forma presencial, ou vice-versa.
Não é a modalidade que garante a qualidade.
A ideia de um professor diante de um
quadro falando para 30 alunos sentados, ouvindo e anotando em seu caderno tem
futuro?
MARIA ELIZABETH: É uma coisa relativizada e não será
abandonada. O professor detém um conhecimento científico maior e é
absolutamente normal que ele exponha uma aula. Só que isso não pode ser um
monólogo nem imperar o tempo inteiro. É fundamental que diferentes dinâmicas
ocorram em sala de acordo com o projeto pedagógico.
Fonte:
http://gestaoescolar.abril.com.br/aprendizagem/entrevista-pesquisadora-puc-sp-tecnologia-sala-aula-568012.shtml?page=2
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